quinta-feira, 26 de maio de 2011

Essa de mim que fomoS

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Como poderíamos destruir
células tão nossas?
Os imperceptíveis olhares
que desnudavam nossos mistérios?

Nos penetrávamos com tanta intensidade...
Seres invisíveis nos atravessavam.
Nunca soubemos quais dobras
ou desdobramentos
em quais velocidades e em que tempos
aconteciamos.

Tua onda sonora nutria os meus desertos,
os meus desejos ascendiam imperceptiveis partículas
e te transmutavam em infinitas gotas.
Éramos fluidos, éramos a espuma,
éramos a brisa, éramos o ocaso do si bemol.

Então desaparecemos de nós nas galáxias.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Liberdade de olhaR

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O Olhar dançava capoeiras,
gira girando,
pintava circulos que se precipitavam
espiralados, alcançado novos espaços.

O olhar era tecido de gestos azuis
que ninavam as esperanças
dos amanheceres...
Naquela hora da baixa maré,
a praia estava nua.

O olhar embrenhou-se mar a dentro,
em mares nordestinos,
cavalgou ondas,
equilibrou-se em jangadas,
entregou as velas aos ventos.

Olhava de longe a terra.
O olhar sonolento desceu as pálpebras,
protegendo a mandala verde da íris.

O olhar do olhar adormeceu.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ela e o passarinho



Com o olhar esquecido olhou a chuva. O vento rodopiava desfolhando a jaqueira imensa. As mangueiras como que bailando, retorciam os galhos mais tenros.
Os pássaros adoidados, procuravam ninhos. O cheiro da terra suada.
A chuva grossa caía!

Um pardal caiu do ninho, um passaritinho de nada, só bico, estava nu, os olhos ainda fechados. Trânsido de frio.
Ela fez um berço de papel picado, macio, e o dia todo como só as fêmeas sabem fazer, alimentava aquele bico faminto.

Começa ali, seu < aprender passarinho > ela nada sabia de fome, sabia sim, que o bico aberto, esperava alguma lagarta moída. Mas, não viria.
Amassou e umedeceu a ração para pintos, uma quase papinha leve, e ofereceu... observou... o passarico alimentado ficou tranqüilo, dormiu.

Agora, aquela coisinha abria o bico, e ela começou a perceber os sinais. Comia, dormia, batia um toco de asa, se rebolava mal jeitoso... se preparava.
Cresceu rápido o passarinho, agora era dono do quarto dela, voava solto. Se empoleirava nos livros, se aninhava nos potes de barro, vezes muitas se escondia. Deu de pular em seu ombro, se aninhava em seus cabelos, puxava os fios, desaparecia em seu coque, aquietava-se.

Ela tinha um pássaro grudado nela, à quem pertencia, como um ninho pertence à um passarinho... ela ria... o que pensa ele que sou? Uma árvore, sua árvore preferida, a sua árvore que andava, quantas vezes ela gozava desse afeto doce, tanto amor num simples passarinho. E assim os dias se passavam, ele... fazia parte...

Mas um dia... que susto! Desce do monjolo um pardal, pousa na gaiola sem fundo, pousa na graminha, juntos, saltitavam por ali, era um macho, só então percebeu, a sua era uma femeazinha. Voaram juntos! O coração aflito, a gaiola deserta, o alpiste! A sua menina voltou algumas vezes, bicava seus cabelos, aninhava-se.

Ela sentia o seu corpinho quente, pesadinho, conversavam, diziam-se saudades.
Começou catando gravetos e fiapos, sumia. Na árvore, bem ao lado da porteira, já agora uma família, teceram um ninho. Ela cuidava, para que não faltasse o chamego e espalhava alpiste na graminha, na gaiola sem fundo tinha sempre água fresca.

Ela esperava... no tempo certo... lalairilalá... ninana nará!!!
SOU AVÓ PÁSSARINHO!!!

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sorvendo BacH



Então essa DIMIN me pegou de surpresa!
E, como se fosse um tigre, senti meus pêlos
quentes, as listras de um negrume intenso.
E com tal voracidade, a vontade de saltar
em teu pescoço, te morder mansamente,
sentir o teu prazer, te enrolar e lamber o teu suor,
teu sal. E a minha língua doce, quente,
te adormecendo, fazendo suaves as minhas garras.
E depois te olhar, simplesmente te olhar,
um olhar de tigre como quando se é dono!

Na selva Bicho!

terça-feira, 17 de maio de 2011

O momento e o clima de quando nasceu Criação

Eles viajavam num sábado. Uma chuvinha fina, chuvinha criadeira.
Ela pensava no momento da chegada à fazenda. O cheiro do curral, misto de leite, estrume, a terra molhada e o hálito quente do gado de leite.
Ela aspirou fundo o cheiro doce da vida.
O silêncio dele dava tempo para que em turbilhão... como num vendaval...
As imagens aquietaram-se, e numa espécie de bebedeira, os olhos se fecharam.
Mas... não mais que de repente, uma voz firme cortou o ar.
Um corte rápido, quase um estupro na paz daquela tarde.


___ O que vale o seu trabalho de arte? Arte não se vende!


As poucos foi ficando lenta de pensamento e a OUTRA conivente se instalou.


Pegou a caneta, abriu a agenda do curral e sem nem saber o que sentia rabiscou lenta e tortuosa a lágrima da surpresa.
Passou a mão na testa como para lavar o último perfume da chuvinha fina.
As asas partidas deixou na estrada, os azuis já esmaecidos, a lágrima contida não escorreu.


Descobriu a linha RETA, RACIOCINADA, não em paralela mas em CUBOS e enquanto ia se apequenando viu-se de cubos ao cubo cercada até que em negro ponto sentiu-se, era ENERGIA contida CONCENTRADA.

terça-feira, 10 de maio de 2011

CriaçãO

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Estava tão conivente com o cubo
que me encubei numa tarde molhada.
Encubada, teria mais tempo pra mim.
Já não cabia a idéia solta, descentrada.
Previ a cabeça enquadrada.
Liguei com o olhar os pontos dos cantos
com linhas retas raciocinadas.
Teci por horas a fio,
E vi-me de cubos ao cubo cercada.
Até que, em negro ponto, senti-me.
Sou energia, contida, concentrada.


                 Estou à espera do big-bang.

O Ovo


Entrar no silêncio do ovo
e ficar.
Um tempo grande sem consciência.
Entrar no silêncio do ovo
e ficar,
penetrar no mais profundo do tempo.


Há muito tempo pressinto
o branco.
Sou um ovo
com um pingo de luz.
Me reinicio em branco,
asas, azul-virgem-sonoras,
pois o azul eu escuto.


Escutar o silêncio e nele
buscar os sons mais tranqüilos,
como os sons do ovo,
enquanto germina.
Entrar no silêncio do ovo,
decidir-se ovo
de um espaço novo,
maduro para nascer.
Em que mundo?
Em que paisagens?
Quero um novo Sol, não este.
Estou à procura de luz própria.


O mistério está atento o tempo todo
dentro do ovo
onde estou
em estado de espera.
Nem é tão fácil nascer.
Quero escolher, coar, colher
o sumo que trago em mim,
entrar no silêncio do ovo,
ficar em estado de ovo,
sentir a esperança do ovo...
Saber-se ovo é poder ruminar,
recriar-se... ovo... ovo... ovo...


Do ovo onde estou é cedo para nascer.
Estou me parindo aos poucos.
Quero doer, pulsar, gemer, rasgar,
quero sentir o arrepio do mistério
do não ser ainda!


E, porque quero, decido:
sou mangueira mulher,
mas não darei frutos.
Vou esperar as chuvas primeiras,
para me enfeitar de ovos.
Me quero grávida de passarinhos.


Sou passarada, revoada!!!