Opiniões & Críticas


 

Os objetos de Rita

Por Anna Ehre

 

 


I  TERRA MUTANTE

O toque tem o poder de desenhar universos. Foi num dia 5, julho, que bati à porta da casa de Rita Brennand pela primeira vez. Era o ano de 2002.  Oh de casa! Oi Rita! Como vai? Permita-me chegar e ir adentrando em sua casa assim, sem avisar e sem cerimônias. Faço isso a convite de um amigo em comum, um certo Coronel por nome Francisco. Há pelo menos duas semanas o ouço dizer: “Essa Rita é uma graça de pessoa. Escreva para ela, vai ficar morta de feliz”.
No último dia 5 de julho, exatamente nove anos depois daquele primeiro encontro, Rita me escreveu pela manhã. Só pra dizer que ainda estou em Macaé até sábado, e para completar meu computador deu uma morrida quase fatal... o  técnico fez uma varredura e encontrou um virus querendo entrar, mas não entrou... porém travou algum a coisa, que já foi restabelecida... assim eu espero, pois agora mesmo quando liguei o bandido ele se fez de morto novamente. Por isso minha pressa e nem vou falar mais do que isso... vou ver se posto mais alguma coisa no Blog, vou comunicar que estarei ausente...Vou viajar sábado... Beijo já com malas prontas e pé na estrada... Ritinha.
Rita não esperou até sábado. Naquela mesma tarde, logo após o almoço, viajou. E não foi para Vitória como me havia dito antes. Botou o pé na estrada para o seu planeta.
Pensar que eu voei para outro plano? Sabia que Deus nos deu livre arbítrio? E tenho certeza que Ele cumpre a lei que nos deu. Sendo assim quando eu quiser ir, passo um e-mail avisando e dando meu novo e-mail lá do planeta AZUL.   Beijoca... Ritinha. Um passaroco feliz!
Um dia depois, ao voltar para casa, avistei um passarinho no chão do passeio com um pedaço de papel preso ao bico...  Dei mais dois passos e ele voou. Há sempre pássaros por aqui, mas não com um pedacinho de papel no bico. Então eu disse para mim: é o novo email! Me verás em azul se olhares para os céus.
Quando consegui escrever para o autor de Salomão e do encontro entre mim e Rita, disse-lhe: Francisco, nossa Ritíssima nos deixou. Estou doída de dá dó. Mas quero agradecer a você por tê-la trazido pra perto de mim. Certamente eu teria sido muito menos feliz sem a Rita presente por todos esses anos com sua vivacidade e voracidade de sentidos a me mostrar o gosto pela vida em cada mensagem, carta, testemunho, poemas, desenhos e afetos que me enviou. Estamos menos azuis hoje, Coronel. O mesmo não posso dizer dos Céus.
Francisco, então, me pediu novamente que escrevesse para Rita. Uma pequena bio... para o Jornal de Poesia.


II  SONS DA TERRA

Uma pequena bio? Não sei escrever com o raciocínio... Falou-me Rita há um mês atrás. Não saberei escrever com raciocínio aqui também.
Escreveremos juntas. Aninha estou tentando reunir textos e colagens e vídeo para o Blog. Há pouco mais de dois meses Rita iniciava sua caminhada pela blogosfera lançando o nosso objetosdaterra.blogspot.com Na verdade estou sentindo como se eu estivesse lançando esse livro, coisa que não tive oportunidade de fazer em 2001. Nem bem uma volta e Rita nos passou o bastão para o levarmos adiante, pois ela tratou de avisar: tenho muito material.

Rita, nome forte como madeira de que cupim não gosta, nasceu Rita Maria Salazar Brennand numa casa de engenho com nome de santo. São Francisco acolheu o primeiro olhar dessa brasileira nascida pernambucana em 1926. Assim começa um pequeno parágrafo que escrevi e que Rita colocou em sua Bio no blogspot do Objetos da terra.

Disse-lhe, semanas após a nossa primeira conversa, a essa altura não mais na sala, mas no quintal de sua casa, que a minha impressão era uma só: Rita Brennand deve ser parecer com alguma coisa como o quinto elemento de tanto impregnada com os outros quatro. De tanto sentir e tecer a terra com água, fogo e ar, aprendeu-lhes os segredos, as curvas e dobraduras. Daí vem a fluidez do seu corpo.  Ao mesmo tempo, demonstra-se tão intenso que um jequitibá centenário poderia lhe parecer um talo de salsa.  Agora mesmo, meu corpo inteiro é sonoro. Sou fibra, faço gestos no ar como se, estando num palco encantado...

“Rita é pura passagem de afetos que se derramam em enunciações poéticas. Rita deseja fazer correr em nossa carne o sangue quente de vida: deseja fazer escorrer em nós o desejo pela vida” escreveu Paulo de Tarso, parceiro de Rita em “Torre de Babel”.

Já foi dito que Rita criou um blog e escreveu um livro. Esse livro é o modo de como eu falo das coisas.  Falta dizer que Rita também plantou árvores e teve quatro filhos com Eduardo, o primo fluminense. Foi paixão ao primeiro retrato, ele todo de terno branco, sapatos de duas cores, uma pose de galã, cabelos pretos, pernas cruzadas, (um homem de 16 anos ). Roubei o retrato e... SONHEI... um dia vou para o Rio.  Já então morando em seu segundo porto, Rita, além do sonho, viveu a insônia de ver os dois filhos mais velhos partirem na infância e deixá-la órfã. Durante toda minha vida, sempre que alguma coisa bela, gostosa  equilibrada me acontecia... alguma DOR se atravessava para tirar o brilho. Me defendo com garras e AMOR.  Rita vai transmutar essa dor no amor pelas cerâmicas. Encontra na argila a sua extensão. Rita desenha, molda, esculpe, pinta e decide expor em 1977. Tive uma hemorragia no dia da inauguração. Teve a alegria ver seu trabalho comentado por Augusto Rodrigues e Frederico Morais. Mas Rita é muitas. E uma Dasdimim escreve e recita. Ao ouvir o CD em que ela faz a leitura de alguns poemas do Objetos da Terra, Consuelo Tomás, escritora panamenha autora do encantador “Libro de las propensiones” disse-me:  “Algunas personas tienen una fuerza extra en la voz, sin duda Rita es una de ellas”.  Quais os sons que Rita Brennand está moldando, esculpindo, desenhando e escrevendo agora eu não sei, mas, certamente, os sofás do planeta Azul não lhe terão serventia.

III ENIGMA DOS SERES

Há muitos que se reportam ao mundo virtual como se este não fosse real. Quem vai me dizer que não é real o que há em mim agora? Não tive o privilégio de encontrar Rita pessoalmente. Conversamos por emails, cartas, telefone e cantos de pássaros. Micheliny Verunschk - outro presente da natureza à poesia - disse-nos há algumas semanas que nós três merecíamos um encontro.  E comecei a pensar, sim. Rita, que entre nós três sempre foi a mais jovem, a mais vibrante e entusiasta, surpreendentemente não disse nem que sim nem que não. Talvez já estivesse pensando em seu novo email...  Verunschk, Ritinha quis ser o Frank Doel de nossa Helene Hanff. Nunca a vimos, mas sempre a amaremos. E sempre teremos a nossa conversa na varanda.

Aninha e Mily só para dizer que não consigo passar um simples email, na segunda linha já bloqueia. A nossa conversa na varanda quase noitinha.... Mily manda as fotos para mim.  Nós, pessoas de pulso forte SIM, fortíssimos. Você tem razão, fiquei só escutando e você confirmou... PÔ eu estava achando um barato essa reunião, adoro fazer bagunça dizer O poema

Deusa sem membros ou cabeça... Oh Grande Extirpadora!
(No terceiro rosto, vi irromper um olhar incisivo diante do observador)
O olhar que desliza das pontas dos teus dedos, abrasado ávido
O que poderá ser esse diálogo com o nada?
(Pela quarta vez um rosto responde: só a madureza faz combustão do próprio fogo)
O olhar é o único sobrevivente, pela quinta vez grafado
Tudo será um jogo, embora não haja sorriso ou lágrima
(Vi o seu quinto rosto, dois olhos imediatos: os alcancei com um passo)
Mil olhos a olhar pelos poros, apaguem os rostos
Acordem todos os artesãos e se encomendem máscaras
(A sede embebedava-se da fonte, assim como a terra, o fogo e o ar)
O olhar dançava capoeiras,  cavalgava  vagalhões

Rita esse é o meu beijo, o caldo de cana dá sono!   
Mily esse é o meu beijo, o suco de pitanga tira o sono!
(Eu por mim já coloquei a máscara do riso e tomei apenas água!)
 
IV  OUTRA MÁSCARA: MULHER

Sei que quando passamos dos oitenta é um tal de... dói quando levanta, dói quando pega um pesinho de nada, quando roda o pescoço parece que tem uma areinha, a memória então nem se fala, mas sabe que é uma curtição perceber que estamos vivendo num planeta Azul?

Não, Rita, eu não sabia, mas você me ensinou a perceber.

Há muitos que se reportam aos poemas (e aos poetas) como se estes urgissem alguma utilidade. Mas alguém dirá que amá-los é inútil?

Micheliny me disse: “com certeza Rita está bem, coisa linda que entrou nas nossas vidas, mulher grande, intensa, que sabe como ninguém de que matéria nós somos feitos.
Amor não se perde, nem por força do tempo e nem por força da distância, seja ela qual for.”

MilyMinhana, estou me despedindo em AZUL,  meu beijo.
Ritinhanossa, outro da mesma cor.



Ritinha



Tenho certeza de que, com sua sensibilidade, onde você estiver, estará captando a minha tristeza pela sua ausência e mais ainda meu desalento pelo fato de não estar perto de você para acariciar sua face em seus últimos instantes conosco. Fiz isso com Luis Ricardo e com Arlindinho, porém a idade não me deu ânimo para enfrentar sozinho avião e ônibus até Macaé, mesmo sabendo que haveria tempo para estar com você.
Adeus minha Ritinha querida,
leva um pedaço do meu coração
deixa um pedaço do teu comigo para eu guardar
junto ao de Luiz Ricardo, Arlindinho, Painho, Mainha e de Mariazinha.

Saiba que você será mais uma, minha santa
como santos e santas são para mim, 
todos os que fizeram parte de minha existência
e já se foram.

Vai Ritinha,
declama tua poesia por aí,
minha doce cana caiana.

Chico Tonho 

*postado para o e-mail de Rita dia 08 de julho 2011 às 19:00







Ritíssima

  


Rita prova o sabor do mundo com o ouvido. Rita ouve lápis de cores. Rita desenha com o olfato e sente odores com os olhos. Rita desfaz as fronteiras entre os sentidos. Rita é completa sinestesia absorvendo e experimentando o mundo.

Esse é o ponto de partida para o que vem depois: o mundo respirado, provado, cheirado, tocado e visto por Rita é transformado em poemas, colagens, desenhos, esculturas e a vida acrescida de lucidez e espanto. Os sentidos de Rita nos dão conta de um espaço maior que seu tempo, do traço maior que o espaço.

Mais do que artista plástica, escultora, ceramista, poeta e fazedora de coisas, Rita é, em síntese, superlativo dos sentidos. Rita é seu nome de batismo. Ritíssima é seu estado de espírito. 

           Eu estava ali inteira à mostra,
           como que despida de qualquer pudor.

Esse é o estar de Rita, ali e acolá: inteira.

            Era a própria terra, o vento, a chuva
            nos envolvendo, num torvelinho 
            intenso, atordoante.

Esse é o ser de Rita: intenso.

            Busquei com voracidade 
            a delicadeza de uma bosta,
            a beleza de suas matérias, suas dobras

Os sentidos de Rita são assim: verozes mesmo diante de um excremento bovino. A bosta para a maioria das pessoas é capaz de provocar apenas asco ou indiferença. Mas os sentidos de Rita não acompanham a multidão.

            Tomei-lhe as dobras, o sulco, a fenda...
            A própria bosta fez-se mulher:
            experimentou desejos, percebeu as cores,
            embebedou-se com os cheiros.
                             Mulherou inteira!

Eles experimentam, percebem e embebedam-se a tal de ponto de inverter sítios e transliterar matérias.


           Tornei-me o estrume, misturei-me na terra fresca,
           me enfeitei de moscas verdes.
           Senti o calor da vida, alimentei raizames,
           transmutei-me em seiva, vesti-me de verdes.
           Senti a volúpia da brisa e, aqui plantada,
           sou ninho, sou sombra,
           me quero grávida de passarinhos.

Rita sabe o que é. Para Rita ser, saber e sentir são sinônimos. Sem fronteiras.

       Por não saber do meu começo,
            percebi que sou contínua.
            Sou como um bicho que capta.

Rita não é apenas como um bicho. É toda a floresta. Não apenas capta, sorve. 

       Só olhos, só asas,
           constantemente atiçada por contatos imprevistos,
           desencadeantes de pulsões, tensões,
           que me levam a expandir-me ou a represar-me.


           Consistir, conter, silenciar,
           entrar no silêncio do ovo, fazer-me ovo,
           insistir em mim a intensidade da vida.

Ao eclodir, Rita nasce poesia em traços, palavras e formas.
       
          Gerar pássaros:
          só olhos,
          só asas,
          voar!
          Pássara-te.

O objetosdaterra.blogspot é seu mais recente vôo. Pássaro surpreeendente desde o trabalho de parto.  Mas Eita! Rita gosta de azuis. Escreve azuis mesmo em preto e branco.

       Porque isso, porque aquilo, porque tem que   ser, experimenta, o que vão falar? Nem vem  que não tem...toma tento menina e pula no escuro, você não tem asas? Sim, não sei, pode ser, talvez.

Sim, eu sei, certamente, sem dúvida: Rita tem asas, sete sentidos e um blog. E nós temos a alegria de ter essas das dimim na blogosfera.







rita it ra ira tira ir a tria
 

primeiro o sonho sangue e água um útero quente

então o passar o pássaro paz

é só chamar fantasia fantasia e ele vem pra mãe

contra a teleologia uma escatologia

rita feminino de rito

ao fazer um barro esbarro na vida

linhas volumes cores cheiros temperaturas rugosidades lisuras

sete ritas compondo sete notas no silêncio

o silêncio antecede a palavra

a palavra

cede

ante

o silêncio

não eu ou tu ou nós ou eles

voz

se fazendo

lavapedracorpo

depois o sonho vapores fumaça vermelho*

ver-me ver

melhor

g.dudus

_________________________________
* vermelho é adam no hebraico.

 


O tema difícil
  

Mais de uma vez o poeta João Cabral de Melo Neto meditou sobre fezes na iminência do ato criador (“Retrato do poeta”) bem como sobre a utilidade do fazer poético (em “O artista inconfessável” diz que “fazer o que seja é inútil” / não fazer nada é inútil / Mas entre fazer e não fazer / mais vale o inútil do fazer”). Da relação possível entre obrar e o fazer criador ou da inutilidade útil da arte, fala a exposição de Rita Brennand no Centro de Pesquisas Ivan Serpa. Depois de uma dolorosa espera Rita decidiu fazer o mais difícil: expor, isto é, expor-se. E foi ao mais fundo do seu ser, regrediu até as coisas primeiras, até as entranhas da matéria (além do barro, o estrume) e do corpo (foi além do corpo, abaixo e dentro, mais que a pele, mais que a dobra, a nádega, o seio, o dorso, o falo, buscou o corte e a entranha, buscou as regiões mais obscuras da geografia do corpo). Fez do corpo barro, nele queimando gestos angustiados, como procura sugerir um filme em super-8 de Bruno Tausz que acompanha sua mostra.
Não é a primeira vez que artistas abordam o tema difícil, de Piero Manzoni usando todo o aparato industrial para embalar sua “merda d’artista” a Bárrio, no Brasil com suas “trouxas” de sangue e ossos e seus trabalhos com papel higiênico, de Duchamp (seu ready-made “Urinol”) e Oldemburg (seus objetos moles) a Paulo Bruscky (agora no IV Salão de Artes Visuais do Rio Grande do Sul) muitos artistas percorreram o mesmo caminho difícil do tema, buscando, porém, alvos diferentes, seja a critica da sociedade de consumo, seja a discussão sobre a própria arte, seja, enfim, o mergulho numa escatologia pessoal e dolorosa, como foi o caso de Bárrio no final dos anos 60 e agora o caso de Rita Brennand, cuja amostra tem o sentido de um grito lancinante durante muito tempo contido na garganta. É como se de repente, a artista abrisse as sete portas de um armário no qual foi escondendo, durante anos, o seu próprio rosto, o seu próprio corpo, suas entranhas. E a chave que abriu este armário aparentemente indevassável foi à visão, na terra, do estrume, do excremento, e que agora se encontra, lado a lado, na galeria, com seus gestos de barro queimado.
Mais difícil que expor-se na obra é expor a obra ao público. Mais difícil para artista é, agora o comentário, o seu próprio, o do outro. No olhar do público, o momento de desamparo e de solidão. É também João Cabral que diz ser o mesmo o “pudor de escrever e defecar” e que o “pudor de fazer é o impudor de publicar”. Para o poeta pernambucano como Rita Brennand, “escrever é estar no extremo de si mesmo, e quem está assim se exercendo nessa nudez a mais nua que há, tem o pudor de que outros vejam o que deve haver de esgar, de tiques, de gestos falhos, de pouca espetacular, na torta visão de uma alma no pleno estentor de criar”.


Frederico Morais


Cartografias poéticas:
Das multiplicidades do si à polifonia nascente de Rita Brennand.


Numa primeira leitura, sobre as enunciações poéticas de Rita Brennand, podemos encaminharmo-nos a equívocos interpretativos: lançar nosso olhar, a um só tempo, na direção do modelo representativo de inconsciente, com uma flecha dirigida a desencavar os mistérios produzidos pelas tessituras sonoras e blocos de imagens que Rita expressa; lançar nosso olhar ao modelo analógico de existência, levando-nos a acreditar na imitação dos seres propostos, ou seja, que Rita tentaria produzir sua expressão imitando a natureza; lançar nosso olhar às linhas de subjetivação, as quais, encaminhando-se, tão-somente, aos ventos do passado.
Rita não quer representar nada, isto é, não deseja fazer jorrar as intensidades de sua vida como uma reprodução poética: não deseja reapresentar suas experimentações passadas pelo véu de imagens da poesia. Deseja sim, fazer escorrer em palavras, em sonoridades, em blocos de imagens, em perceptos, uma constelação de forças que, com efeito, transbordam em si, nascidas do encontro com outras forças, na relação com o plano do Fora. Plano de coexistência.
Por este prisma, Rita produz um pensamento múltiplo, lançado aos ventos que assopram na direção dos pensadores do Fora: Rita se conecta com todas as forças que possam lhe tocar num dado instante, para num relance, já estar tomada num devir, num corpo intenso, completamente desterritorializado de suas funções psicossociais orgânicas e molares.
Rita quer produzir-se a cada encontro, deixando-se escapar de si, de sorte, a transbordar numa relação de movimento-repouso-velocidade e lentidão de suas partes, tornando-se parte de um agenciamento complexo: Rita-Barro; Rita-Bosta; Rita-Ovo; Rita-Pássaro; Rita-Tantos...
Rita exercita o poder de afetar e de ser afetada por intensidades despercebidas para muitos: Plano Molecular. Universo de ínfimas intensidades, partículas de sensações que, por seu turno, jorram a cada encontro, suscitadas pelo diálogo com as forças múltiplas do Fora.
Rita é tomada numa conexão rizomática, nos termos deleuzianos: campo fecundo de variações de trajetos experienciados, sobre o qual produzir-se-á uma coexistência entre passado, presente e futuro. Produção de intensidades, de afetos que, a um só tempo, lançam-na na direção da composição de uma existência plástica, afetada por suas partes e pelas partes a que se permite conectar. Produz com sua fala um cristal temporal.
Rita lança-nos numa “vertigem do espaçamento”, conceito de Blanchot, espaço sobre o qual germina a pululação dos gérmens potentes, gérmens de forças que, por conseguinte, estonteiam qualquer intervenção lógica racional. Rita quer fazer gemer uma lógica sensível, na qual torna-se inteligível, mais por suas conexões intensivas de afetos e menos por uma compreensão intelectivo-interpretativo-racional.
Rita não quer imitar um bicho, a terra, a bosta etc.: deseja, tão-somente, deixar transbordar em si as intensidades produzidas da relação com os objetos do Fora. Rita afeta-nos com uma outra lógica: a lógica dos seres de sensação. Neste campo, seu pensamento entra em conexão e cruzamento com as linhas de Fernando Pessoa: produção dos seres de sensação, dos blocos de sensação puros. Rita escreve por puras sensações, ou como diria Daniel Stern: por afetos de vitalidade.
Neste território, Rita entra num agenciamento com outros corpos, externos a si, deixando escorrer em si um grau a mais de singularidade: não imita o barro, mas entra numa zona de vizinhança em que já não consegue se distinguir daquilo que transbordou no que era o seu Si. Torna-se Rita-Barro. Rita é pura passagem de afetos que derramam-se em enunciações poéticas, narrativas: o encontro advindo com as forças de um dado acontecimento. Rita-criadora de nomes próprios.
Rita é pura multiplicidade e afeta-nos com um grau a mais de potência, ao afirmar-se parte de cada agenciamento, de cada conexão inaugurada por seus encontros.
Rita não quer falar do passado, pois, as intensidades passadas explodem em seus presentes, deixando-as explodirem nos múltiplos platôs experimentados no instante vivido. Se o passado surge em Rita, surge mais para deixar retornar os afetos, as intensidades, as velocidades, os blocos de sensações que matizam, tão-somente, numa intervenção de contágio com outras intensidades do presente nascente.
Rita deseja fazer correr em nossa carne o sangue quente de vida: deseja fazer escorrer em nós o desejo pela vida. Rita-Alegria. Rita transborda a alegria Nieszcheana, encontrando-se com a potência da criança existente em cada um de nós.
Essa dimim que não se vê flutua... ela não se vê flutua, ela se desfaz da poeira, ela se desfaz através do som, se desmancha na curva da estrada, ou no som do sino que da igreja se desfaz...  Rita pulveriza o ego... desterritorializa o ego... desmancha as fronteiras personalísticas e individuais da Rita Brennand, para ser outras de si... ser pré-individual, ser pré-personalística: ser em estado nascente, para escorrer nos ventos sem ser conhecida, identificada... Rita desmanchou o nome próprio... tornou-se pura vibração...
As curvas sonoras expressas por Rita entram num trajeto barroco de dobras que se desdobram: feito as melodias bachianas encontrando-se com suas linhas de fuga, entrecortando de passagem outras constelações sonoras, outras possibilidades de novos horizontes. Contacto vibrátil. Rita dobra a própria  linguagem. Desdobramento das peles existenciais, desdobrando-se através dos acontecimentos em que é parte. Mutação existencial. Ser filha dos seus acontecimentos: produzir as muitas de si como estado nascente.


Paulo de Tarso de Castro Peixoto


Graduado em Musicoterapia, Pós-graduado em Educação-Currículo e Práticas Educativas e em Psicopedagogia, Mestre em Psicologia e Doutorando em Psicologia pela UFF, Diretor Técnico do Espaço Vital – Centro de Pesquisas e Estudos Transdisciplinares, Professor do Curso de Especialização em Saúde Mental do Laboratório de Pesquisas em Saúde Mental e em Atenção Psicossocial – LAPS-ENSP-FIOCRUZ  e idealizador da Heterogênese Urbana.




Poesia Telúrica


Éramos jovens, a segunda guerra mundial havia terminado, na Academia de Novos repetíamos debates velhos de século. Que era poesia? Classicismo ou modernismo? A poesia só seria válida se apresentada em versos medidos, ritimados e rimados? Ou não?
Orlando Cariello, sonetista admirável, defendia (e o fez até o fim da vida) a forma tradicional. Antenor de Carvalho, como se vê em fragmentos, se bandeou para o nosso lado modernista, que tinha à frente Rômulo Salles de Sá. E, já naquele tempo, em coferência de 1944 na Universidade de Gales, T. S. Eliot ensinava que, para os conteporâneos, não há "nenhum padrão definido de gosto na poesia".

Relembro esse momento antigo da história cultural vitoriense, ao me encontrar com a P-O-E-S-I-A telúrica de Rita Brennand.

Em Objetos da Terra, temos quatro blocos ("Terra mutante", "Sons da Terra", "Enigmas dos Seres" e "Outra Máscara Mulher"), porém, para mim, estou frente a um só e longo poema intérmino que emocionado, ouvi, talvez em primeira mão, através de voz tão sonora e vivaz quanto a poesia que a espantada e dolorida máscara da autora transmitia ao seu ouvinte.

Por essas bandas, ao meu ver, só andou outra poeta com a força e a profundidade de Rita Brennand:
Haidée Nicolussi, a tradutora de Lao Tse.

Está sendo editada pela Flor&cultura uma poesia forte, sofrida, madura e, afirmo conscientemente de qualidade duradoura. Essa "dicção poética" (naquele sentido a que se refere o Dr. Johnson ao falar de Dryden) nos transmite de imediato, imagens em que "tudo se expande e vibra", em dança frenética, que, tenho certeza, deixará no leitor forte impressão.


__ Renato Pacheco




Miguel Marvilla

Estou há dias diante do computador, à espera de que as palavras saltem automaticamente do teclado para a tela e falem de Rita Brennand e de seus Objetos da Terra. Esperança vã. Até onde alcança meu conhecimento, não existe um só registro de texto que se tenha escrito por si mesmo. Todo texto é fruto do trabalho de seu autor, um trabalho que leva em consideração alma e cérebro — simultaneamente. Não há um só caso de auto-escritura na história da literat... ou... há?
Será que a minha dificuldade para falar da poesia de Rita Brennand não se deve ao fato de que uma parece tão naturalmente esculpida no papel com as feições da outra que não se poderia distinguir o que é Rita, o que é poesia, sem que se cometesse grave injustiça com uma ou com outra?
Porque o fato é que a poesia de Rita Brennand neste Objetos da Terra que tive a honra de editar se confunde com a própria autora, de forma tão indelével que inútil seria tentar separá-las, autora e obra. Rita é o que escreve e Rita escreve o que é, num círculo virtuoso que absorve e encanta os que nele penetram.
Diz-se da interpretação que ela é característica dos que pretendem reduzir todo um universo de conotações existente na obra de arte a uma única paráfrase denotativa. Dessa forma, interpretar poderia ser visto como uma espécie de fascismo, o qual se caracteriza, segundo Umberto Eco, não por impedir de dizer, mas por obrigar a dizer. Longe das intermináveis discussões teóricas que poderiam vir à tona em vista dos poemas de Objetos da Terra, melhor que se deixem, portanto, seus versos à deriva. Uma hora eles alcançam seu porto numa alma limpa e arejada — que elas existem, lá isso existem, Rita Brennand é prova disso — e multiplicam as emoções de que são feitos, para que são feitos.
Porque, sim: este é um livro para as pessoas que têm os sentidos abertos para o mundo, que pensam com o coração. Fala das coisas simples da terra, das coisas simples da alma... das coisas simples da alma?!? E desde quando é simples lidar serenamente com as próprias emoções; transformar a dor em razão para existir; superar os traumas; fazer a vida valer o esforço para mantê-la?
Rita Brennand moldou a sua dor pessoal em barro e, do barro, à maneira de Deus, fez a sua poesia, retomou a sua vida. Um amor atávico aos elementos da Terra faz deste livro uma homenagem à existência e dá aos seus leitores a sensação (repito: é preciso lê-lo com os olhos da alma, com todos os sentidos despertos, como um goleiro na hora do pênalti), a sensação de que, ao contrário do que dizia o lema da Escola de Sagres, “viver é preciso”, pois o universo é aqui.
O leitor, encantado, pede mais:
 


Miguel Marvila é poeta e contista, autor de Dédalo, Lição de labirinto, Os mortos estão no living e Tanto amar, entre outros livros. É membro da Academia Espírito-santense de Letras e editor da Florecultura Editores e da revista Você, da Universidade Federal do Espírito Santo. arcanjo59@hotmail.com




Rita Brennand


"A arte de Rita é marcada pelo seu amor a terra e ao que dela aflora. E é a própria terra o seu material de criação.

Arte simples, pura, genuína.

E se o que ela apresenta, hoje nos emociona, nossa imaginação é aguçada pela indicação apenas esboçada de um caminho novo. __ Rita virá a ser a ceramista jogando com grandes volumes __ mescla de escultor e arquiteto."

Augusto Rodrigues



Encontro


a fêmea a terra as entranhas o estrume
o ovo o ninho a semente

a bosta a massa matéria vida a força
a seiva do capim verde o calor

bosta terra bosta dor bosta mulher
fêmea força fêmea vida fêmea amor
O que faz desencadear no artista uma linguagem, um caminho, no meio de tamanha diversidade de materiais? Sons, palavra, vegetais, pele, fibras, rochas, pedras, terras? A matéria orgânica e a matéria inorgânica? O que se vê e o que não se vê?

1961

Georges Braque queria dar a sua esposa um presente muito especial pelo seu octogésimo aniversário. Ocorreu-lhe colocar sobre o seu dedo uma pequena fotografia montada em um cartão. Pensou em um camafeu. Buscou o lapidário Heger de Löwenfeld e juntos enveredaram pelo caminho das pedras e dos metais, impondo-lhes sua vontade. O pintor, que não hesitou em usar jornais e embalagens, estava enfeitiçado pela matéria, e não hesitava em usar terras, areias, pedras, metais. Para ele, pedras e matéria bruta, pobre ou rica, eram elementos novos e o que mais o tocava nas pedras e nos metais era o brilho de sua verdade. Nasciam as jóias de Braque.

Rita Brennand pintava e estampava em tecidos.

1964

Rita começa a buscar um caminho através da cerâmica. Corre de atelier em atelier.

1965

Instala em sua casa três fornos. Entalha no barro, mistura cores, pinta jarrões, “coisas já feitas, compradas”. Queima peças de outras pessoas em seu atelier. Estampa e queima azulejos.

1970

Mostra pela primeira vez seu trabalho. Placas de argila crua com a cor integrada na própria argila.

1972

Encerra sua indústria artesanal de azulejos. Morre Luiz Eduardo, seu filho mais velho. Desintegra-se e busca integração na sua relação com a argila, impondo-lhe a sua dor.
“O meu inferno foi querer possuir desintegrei-me em outras matérias. Projetei-me em outros corpos....”

1973/1976

Cerâmica, só cerâmica. Como linguagem. Como vida. Encontra-se com sua dor e convive com ela através do barro. Reencontra-se com si mesma.

1976

O barro só já não satisfazia mais. Parte para nova busca. Encontra a Escola de Artes Visuais. Encontra a Terra. Encontra a Fazenda. Encontra a bosta com que se relaciona.

O barro a conduziu além dele mesmo.
Novas discussões.
Luta.

Todos esses anos, de 1972 a 1977, estavam fechados num armário. Armário do seu quarto. Peças de fortes emoções, medos, angústias. Peças que não saíam para viver cá fora. Saem agora.

CELEIDA M. TOSTES




O Sensualismo potente de Rita Brennand


A equação mais difícil para todo artista - que alcança a convicção de que no horizonte da arte deve reinar uma unidade sensual entre o homem e a natureza, consiste em fazer com que o humano desapareça na paisagem, o espírito devenha matéria, a ideia se torna sensação, em suma, que o pensamento e o sensível se esposem em um plano processual. Talvez a paixão artística nos momentos mais presunçosos do seu arrebatamento não queira outra coisa: fazer da obra o testemunho de uma vida que não mais separe espírito de sensação. Só então o processo acontece ali onde a potência da vida espiritualiza a matéria, fazendo brilhar, na eternidade que dura sobre o material artístico escolhido, os afetos e as puras percepções de um desejo impessoal.

Mas se esta equação é tida como difícil, isto se dá graças ao movimento contrário da subjectivação que consiste em prender os afetos e as percepções nas representações que recobrem o vivido. A história e a memória - testemunhas indubitáveis do trabalho da cultura sobre nós - atam-nos a um passado vivido, prendem-nos a um individualismo interior, fazendo-nos experimentar a unidade sensual da qual a arte é testemunha como um ideal de dificil realização. Difícil na medida em que pressupõe a desconstrução do vivido organizado, dos estratos clichês a serviço dos interesses individuais, para liberar as potências impessoais da vida que irão tornar sensíveis a unidade desejada.

Existem casos onde isto acontece em um "tarde demais". São sempre aqueles onde a esfera cultural do indivíduo perdeu lugar no novo mundo, fazendo-o sentir a sua própria derrisão. Quando a esfera se parte, e a vida irrompe localmente aberta para sensações dispersas, nada consistentes, a brutalidade do processo torna insuportável a magnitude excessiva das intensidades que se apresentam. As alucinações, os maus sentimentos, a impressão de morte súbita e a loucura - índices de um sensualismo não vingado - apresentam-se sempre ao lado deste ideal pela desconstrução abrupta.

Talvez, a falta de prudência ou excesso de pretensão tenham atrapalhado o experimentador. Talvez, ainda, o ideal não estivesse impregnado o suficiente da força da paixão, e o motivo inconteste do desafio tenha recaído sobre o eu que o experimentou como insuportável, fazendo valer no seu lamento o "tarde demais para mim".

Entretanto, há casos excepcionais onde a travessia do "tarde demais", seja através do fracasso, seja através da loucura - vista aqui como momento de pura dessubjetivação - seja, enfim, através de "um não mais poder esperar", faça acontecer a obra de arte na mais inocente experiência do viver, quando nada resta, há os devires, há o que deve ser visto, há a inocência do animal, há a pureza do barro e há enfim, a violência intempestiva de um desejo que investe, em múltiplas direções, os afetos e as paisagens da natureza, para transformá-los em signos de uma obra de arte vital.

Assim é o trabalho de Rita Brennand. Durante todo o seu percurso ela não parou de insistir na seguinte ideia: tornar possível a indistinção entre a vida e a natureza. Ao mesmo tempo em que colocou - movida pelas intempéries da vida - o viver em fuga das organizações dominantes, desfazendo com isso o organismo, tratou de conectar toda a potência liberada - com os seus impulsos, as suas intensidades e os seus devires - com as forças oriundas da natureza. Esta ideia, recorrente na evolução do seu trabalho, reaparece em todos os procedimentos. Nota-se por exemplo, que tanto no desenho quanto no poema e na escultura o motivo é sempre o mesmo: na inocência da vida liberada encontrar uma unidade sensual superior. E ela o encontra na imensa zona da indistinção que promove entre a vida e a arte.


Auterives Maciel Junior  





Rita Brennand é homenageada no “Palavra Expressa”

08/10/2007 às 17:17:35



O projeto Poesia Palavra Expressa, desenvolvido pela Biblioteca Pública Municipal Dr. Télio Barreto, da Fundação Macaé de Cultura, homenageará, nesta terça-feira (9), a poetisa Rita Brennand. O projeto acontece quinzenalmente às terças-feiras, às 18h, no Café do Teatro Municipal. O evento é voltado para comunidade, estudantes e especialmente para os amantes da poesia. O recital, no aconchegante ambiente do café, decorado com varais de poesia, atrai, a cada edição, um número maior de apreciadores. A entrada é franca.
A poesia intensa de Rita Maria Salazar Brennand, será o foco deste “Palavra Expressa”. Sucesso de crítica, a escritora sem vaidades diz de si mesma: “Não sou poetisa. Apenas escrevi sobre um período de minha vida”. O escritor Frederico Morais publicou a seguinte análise do trabalho de Rita, no Jornal do Brasil: “Depois de uma dolorosa espera, Rita decidiu fazer o mais difícil: expor, isso é expor-se. E foi ao mais fundo do seu ser, regrediu até as coisas primeiras, até as entranhas da matéria...e do corpo...Fez do corpo barro, nele queimando gestos angustiados”.



Nascida em Recife-Pe, Rita Brennand, 81 anos, foi também ceramista e escultura. De suas obras em cerâmica, produzidas entre 1972 e 1977, em Itaboraí-RJ, se originou a maior parte dos poemas de seu livro “Objetos da Terra”, publicado em 2001. A obra é dividida em quatro temas: Terra Mutante, Sons da Terra, Enigma dos Seres e Outra Máscara: Mulher. A arte de Rita Brennand é marcada pelo seu amor a terra e ao que dela aflora. A própria terra é o seu material de criação.



O musicoterapeuta e mestre em psicologia Paulo de Tarso de Castro Peixoto também publicou uma apreciação sobre o trabalho da escritora. “Rita entra num agenciamento com outros corpos, externos a si, deixando escorrer em si um grau a mais de singularidade: não imita o barro, mas entra numa zona de vizinhança em que já não consegue se distinguir daquilo que transbordou no que era o seu Si. Torna-se Rita-Barro. Rita é pura passagem de afetos que se derramam em enunciações poéticas, narrativas: o encontro advindo com as forças de um dado acontecimento”, disse.



- Afundo os pés no barro que, submisso, se esparrama. Percebo a docilidade dessa matéria que me atrai. Ela brinca com meus sentimentos. Ela atiça os meus desejos - revela Rita em um de seus poemas.


5 comentários:

Miguel Matos disse...

Que saudades tenho de ti meu Amor. Teu Trabalho permanece PARA SEMPRE DENTRO DE MEU CORAÇÃO.

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